Isso desafia o bom senso. Ou pelo menos a versão vendida pelos anunciantes.
Pessoas que afirmam se preocupar mais com o planeta? Muitas vezes são os maiores poluidores.
Não apenas em geral. Estamos falando dos ricos. Os altamente educados. O jet set. Entre estes grupos, uma maior paixão pelos ideais ambientais está diretamente correlacionada com uma maior pegada ecológica. Não é uma falha moral. É estrutural.
“Não queremos sugerir que os indivíduos sejam os únicos responsáveis pelas suas pegadas de carbono.”
Essa citação vem de Malte Dewies, pesquisador da Universidade de Cambridge que ajudou a escrever este estudo. Ele está certo. Culpar os indivíduos é totalmente errado. Especialmente porque a própria “pegada de carbono” é uma construção de marketing empresarial, popularizada pela BP para fazer os consumidores sentirem-se culpados, ao mesmo tempo que deixa os verdadeiros emissores fora de perigo.
A metodologia é importante
Os pesquisadores não apenas adivinharam.
Eles entrevistaram 5.000 pessoas em seis países: Canadá, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e EUA. Eles mapearam o status socioeconômico usando riqueza de renda e prestígio profissional. Então eles investigaram os valores. Vistas sobre a natureza. Pareceres sobre resíduos. Finalmente, eles rastrearam o comportamento real. Consumo de carne. Tamanho da casa. Geração de lixo. Vôo.
Os dados contam duas histórias.
Para a pessoa média, cuidar da natureza significa uma pegada menor. Isso é verdade. Mas olhe para os 30% mais ricos. A tendência muda. As pessoas que mais amam a natureza nesta faixa têm uma pegada maior do que seus pares indiferentes.
Por que?
Vôo.
É a atividade com maior intensidade de emissões que um indivíduo pode razoavelmente realizar. Ambientalistas ricos voam com frequência. Eles justificam isso através de pequenos atos. Reciclagem. Redução de canudos de plástico. Esses gestos mal movem o ponteiro das emissões totais, mas permitem que a consciência descanse.
Valores universais versus ações locais
Felix Creutzig, da Universidade de Sussex, diz isso claramente.
O ambientalismo é um valor “universalista”. Atrai pessoas de mente aberta. Pessoas que desejam se envolver com culturas diferentes. Que têm amigos no exterior. Que, consequentemente, pegam aviões.
“Não é que estas pessoas sejam más. É que o sistema lhes permite conciliar os seus valores com comportamentos de alto carbono.”
Isto contradiz a “curva ambiental de Kuznets”. Essa teoria mais antiga sugeria que a poluição aumenta com a riqueza até que um país seja rico o suficiente para se tornar verde. Este estudo sugere que o comportamento individual não se curva naturalmente para baixo à medida que alguém fica mais rico. Os ricos continuam ricos. Eles também ficam sujos.
Micha Kaiser, também de Cambridge, diz que é inútil visar atitudes com campanhas. Precisamos de medidas mais fortes. Política real.
Acertos e erros da política
Os impostos são uma alavanca.
O Reino Unido e a Alemanha aumentaram os impostos sobre a aviação. As tarifas aéreas aumentaram 24% devido à crise energética do conflito iraniano. Isso impediu os ricos de voar? Provavelmente não. Os seus preços são demasiado elevados para os pobres, mas demasiado baixos para dissuadir os ricos.
A França tentou uma linha mais dura em 2023. Proibiu voos domésticos de curta distância onde existam comboios. As brechas permaneceram. Nenhuma rota foi realmente cortada. A lei era simbólica.
Carlo Aall, do Western Norway Research Institute, argumenta que a política não é suficiente. Ele defende o decrescimento. A ideia de que as economias deveriam encolher para poupar recursos. Mesmo os ambientalistas, diz ele, não conseguem escapar à roda do hamster do consumidor.
A armadilha da hipocrisia
Há um perigo aqui.
Destacar a hipocrisia dos verdes ricos poderia desencorajar a acção pública. As pessoas adoram odiar os hipócritas. Bill Gates voa em jatos particulares. Ele financia a filantropia climática. O contraste é fácil de zombar. Fácil de usar como desculpa para não fazer nada.
Mas considere Greta Thunberg.
Ela inspirou protestos massivos. Esses protestos levaram a Alemanha a adoptar uma verdadeira legislação climática. Ela não voa. Seus apoiadores? Muitos deles fazem isso. A viagem deles invalida a vitória legislativa?
Félix Creutzig diz que não.
“Ser um cidadão com voz ativa é mais importante do que o comportamento do consumidor.”
Votar é importante. O protesto é importante. Mudar as leis é mais importante do que comprar uma garrafa reutilizável no supermercado.
O estudo não exonera os ricos. Isso não desculpa os voos. Isso apenas mostra que os valores são maus preditores de comportamento quando a renda permite ignorar as consequências. Não podemos envergonhar o nosso caminho para um planeta verde. Devemos forçar o nosso caminho.
A questão é se os poderosos se permitirão ser forçados.
Ou se simplesmente continuarão voando em primeira classe.
Nature Communications Terra e Meio Ambiente. DOI: 10.101/j.nature.2024.12345 (DOI hipotético para estrutura).
