Homero nunca chamou Ítaca de ilha. Nem uma vez. Durante séculos presumimos que o poeta descreveu a terra natal de Odisseu como uma massa de terra isolada, cercada pelo mar. Construímos mapas mentais inteiros em torno dessa imagem. Acontece que esses mapas estavam errados. Dois estudiosos, James Diggle, de Cambridge, e John Underhill, de Aberdeen, dizem que a suposição está morta. Viva a península.
Seu argumento repousa no próprio texto. Homero usa consistentemente palavras gregas como gaia (terra) ou patris (terra natal) para descrever onde Odisseu mora. Ele também usa dimos, que significa domínio ou região. Se o poeta quisesse dizer ilha, a palavra nisos cabe perfeitamente na métrica. Tem a mesma estrutura silábica. O lugar no versículo era um espaço vazio para uma palavra que ele nunca preencheu.
“Ele tem muitas oportunidades de chamar aquilo de ilha”, diz Diggle. “Mas ele nunca faz isso.”
Consideremos a cena em que Odisseu finalmente vê sua casa depois de dez anos no mar. A maioria das traduções diz que o navio se aproxima da “ilha” de Ítaca. Mas olhe mais de perto. O grego diz que ele entra no dimos de Ítaca. O domínio. A implicação é sutil, mas nítida. Ítaca não é tudo. Faz parte da terra maior que o navio está se aproximando.
Essa terra maior é Kefalonia. Especificamente, a península Paliki, no oeste. Isso se ajusta melhor ao fato de Odisseu governar os cefalenianos. Também faz sentido geográfico. A moderna ilha de Ítaca é montanhosa e está voltada para o leste. Homero descreve sua Ítaca como baixa e voltada para o oeste, situada perto de três outras ilhas.
Um empresário chamado Robert Bittlestone percebeu essa incompatibilidade em 2005. Em Odysseus Unbound, ele propôs que Ítaca costumava ser sua própria ilha antes que mudanças geológicas a unissem a Cefalônia. A teoria era sedutora. A captura foi física. Deve ter existido ali um canal de água por volta de 1.200 a.C.
Underhill passou vinte anos procurando provas. Ele dirigiu pesquisas geológicas. Ele procurou a cicatriz do estreito. Nada. O canal nunca existiu.
Este deveria ser o fim da teoria Paliki. Em vez disso, fortaleceu-o.
Se Ítaca não fosse uma ilha, a geologia apoia a filologia. Os textos apontam para uma península. O chão aponta para o mesmo lugar. Escavações recentes em Livadi Marsh, em Paliki, estão revelando artefatos da Idade do Bronze. Foi um centro significativo. O porto de Odisseu? Talvez.
“Estamos confiantes de que surgiu uma explicação elegante”, observam os pesquisadores. Aquele que une a sujeira sob nossos pés com as palavras da página. Alinha-se com a visão fundadora de Bittlestone. A montanhosa Ithaki é uma isca. Paliki é o prêmio.
Lemos essas histórias como verdades antigas. Nós os mapeamos na realidade com uma certeza arrogante. Talvez devêssemos ter ouvido a gramática primeiro. Quem verifica o medidor?
O mar ainda está lá. As pedras são iguais. Apenas nossa perspectiva muda ligeiramente.
