O olho azul pisca de volta

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Décadas de silêncio foram quebradas por um sussurro.

Os astrônomos perceberam. Um fraco sinal de rádio. Veio de uma estrela de nêutrons que pensávamos estar morta.

Quando uma estrela massiva explode, o núcleo entra em colapso. A gravidade o esmaga. Torna-se um buraco negro ou uma estrela de nêutrons. Se for o último, está girando rápido. Muito rápido. Seu campo magnético chicoteia partículas carregadas em um feixe, disparando-as perto da velocidade da luz.

Esse feixe emite ondas de rádio. À medida que a estrela gira, o feixe passa por nós. Como um farol. Clarão. Escuro. Clarão. Escuro. Isso é um pulsar. Bastante simples.

Mas nem toda estrela de nêutrons se comporta dessa maneira. Cerca de uma dúzia de objetos conhecidos ficam no meio das crateras de supernovas e não dizem nada. Nenhuma onda de rádio. Os astrônomos os chamam de Objetos Compactos Centrais ou CCOs. Durante anos, presumimos que seus campos magnéticos eram fracos demais para fazer qualquer ruído. Nós ouvimos. Ouvimos estática. Ou melhor, a ausência disso.

Até que a equipe de Zhang Lei decidiu procurar mais.

Usando o radiotelescópio MeerKAT na África do Sul, eles localizaram um CCO específico: 1E 1207.A-5209. Está na nossa própria galáxia, a dez mil anos-luz de distância. E adivinhe? Estava conversando.

Fracamente. Sim. Mas definitivamente pulsante. A cada 424 milissegundos, uma fraca explosão de rádio é disparada. Corresponde ao giro conhecido da estrela. Não é silencioso. Estava apenas se escondendo.

Li Di, professor da Universidade Tsinghua, deu um apelido a esse objeto. O Pulsar de Olho Azul. Não apenas pela luz, mas porque quando você sobrepõe os fracos dados de rádio em imagens brilhantes de raios X, eles se assemelham a um olho azul. 👁️

Aqui está o chute.

Essa coisa tem história. A supernova que o criou explodiu 4.100 anos antes de acontecer com você. Em 2015, vimos isso gaguejar. Uma “falha”. A estrela girou ligeiramente, mais rápido do que a física dizia que deveria ser permitido. Talvez o material interno tenha mudado. Talvez o núcleo tenha torcido.

A equipe de Lei acha que essa falha fez o trabalho pesado. Pode ter reorientado o campo magnético. Ou fortaleceu-o. O suficiente para ligar o transmissor de rádio. Ou talvez o sinal estivesse sempre lá, fraco demais para ser captado até que o ângulo mudasse.

O que acontece agora? A falha se resolve. A estrela volta ao seu rastreamento normal. As ondas de rádio podem parar. Se o fizerem, isso prova que estas estrelas são emissores tímidos, ligando e desligando.

E isso muda tudo.

Podemos ter sentido falta deles. O tempo todo.

Se este Olho Azul for um protótipo para outros vizinhos silenciosos, a Via Láctea está nadando em pulsares não detectados. Poderíamos ter classificado incorretamente pulsares antigos e de rotação lenta. Ou podemos estar sentindo falta dos jovens, confundindo sua quietude com a idade, quando na verdade eles estão apenas… quietos.

Veja a Supernova 1987A. Esse é o brilho da Grande Nuvem de Magalhães que todo mundo adora. Temos certeza de que uma estrela de nêutrons vive dentro dessa nuvem de detritos. Evidências indiretas dizem que sim. Mas nenhum sinal de rádio foi confirmado.

Talvez seja um olho azul também. Sussurrando suavemente no escuro.

Ou talvez ainda estejamos procurando na banda de frequência errada.

Isso deixa você se perguntando o que mais há por aí, silencioso, mas presente. Ajustamos os mostradores, na esperança de captar outro sussurro. Mas às vezes o silêncio parece mais alto.